Ao longo de uma temporada e meia, The Walking Dead introduziu os Sussurradores, declarou guerra contra os sobreviventes e concluiu o arco quando Negan (Jeffrey Dean Morgan) assassina a líder Alpha (Samantha Morton). Restando alguns capítulos após a reviravolta, a série não perdeu tempo e já introduziu sua próxima fase, com a chegada de personagens como a Princesa (Paola Lázaro) e também o primeiro contato com a Commonwealth (ou Império).

Esses eventos são momentos marcantes da reta final das HQs de Robert Kirkman, então vale a pergunta: a série de TV está perto de acabar? A resposta curta é sim. A realidade, porém, é um pouco mais complexa.

O seriado é moldado pelos quadrinhos, mas não segue fielmente o material-base há anos. Mesmo assim é difícil imaginar o programa criando ganchos completamente inéditos para seguir o arco “Nova Ordem Mundial”. É um caso especialmente complicado o fato da adaptação não ter mais figuras centrais como Rick (Andrew Lincoln), Carl (Chandler Riggs) e Michonne (Danai Gurira). Por si só, isso vai pedir muita criatividade dos roteiristas para contornar a conclusão das HQs mas, a essa altura, é quase impossível que consigam criar algo que dê sobrevida à trama. Scott Gimple, chefe criativo da marca, garante que o fim não será nas próximas duas temporadas. Com a reinvenção criativa pela atual showrunner Angela Kang, é visível que a narrativa anseia por algo mais complexo do que transitar entre grandes ameaças para os sobreviventes. Assim, é possível que o 13º ano da série seja o último.

Houve uma época que The Walking Dead dominou a cultura pop e a TV, com sua audiência impecável. Isso ficou no passado. Não só os números caem a cada episódio, como também boa parte do público deixou a série. Quem ainda acompanha encontra conforto na melhora que a produção passou em roteiro e direção, mas não vê o seriado no ar por mais dez temporadas. Neste ponto, por mais que as últimas temporadas tenham sido verdadeiramente ótimas, encerrar o programa é um ato de piedade para evitar que se arraste novamente, como fez durante a fase de Negan. Mas isso não significará o fim de The Walking Dead.

Em 2018 Josh Sapan, o presidente da AMC, afirmou que a emissora vê mais uma década para TWD pela frente. Pode soar um exagero quando se pensa apenas no seriado, mas o canal sempre deixou clara a intenção de ir além: “É um universo, e nós temos planos para administrá-lo ao longo da próxima década e mais”, falou Sapan aos investidores. Esse planejamento já entrou em execução. Não só Fear the Walking Dead prepara sua sexta temporada, como também um novo derivado está em desenvolvimento, World Beyond, que mostrará a geração nascida já no apocalipse. Além disso, há uma trilogia de filmes focados na saída de Rick Grimes, que só parecem ganhar mais e mais importância ao julgar como a figura do ex-protagonista continua relevante nesse universo.

A estratégia, inclusive, já foi testada. Iniciada em 2008, Breaking Bad foi um dos sucessos que botou a emissora no mapa, e foi aclamada que como uma das melhoras obras televisivas já feitas. Se engana quem acha que o fim foi em 2013: o derivado, Better Call Saul, segue na ativa desde 2015, e 2019 marcou o lançamento de El Camino, filme sequência focado em Jesse Pinkman (Aaron Paul), que serviu para o canal testar tudo que quer com TWD, como exibições cinematográficas e transmissão de longas originais na televisão.

The Walking Dead cresceu além da série iniciada em 2010, e a AMC tem vários projetos nas mãos para comprovar isso. Muitos podem não funcionar, seja por falta de público (Fear TWD sofre com isso, apesar de ser excelente) ou por execuções duvidosas. O fim da série principal só sinaliza o começo de uma nova fase. Resta torcer que, diferente dos vários zumbis da franquia, não seja uma sobrevida decadente e sem rumo.

Texto de Arthur Eloi